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MÁRIO DOMINGUES: das pasmosas aventuras de Anton Ogareff e Billy Keller

Nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado, surgiram em Portugal umas séries de livrinhos de aventuras extraordinárias, saídas da pena inspirada e prolífica de dois autores de nome inglesado (ou americanizado): Henry Dalton e Philip Gray.

O enredo das histórias, aparentemente sem fim, versava sobre as realizações assombrosas de uns poucos de aventureiros de diversa proveniência.
"A Volta ao Mundo por Dois Aventureiros", por exemplo, ficou a cargo de um belga (Roger) e de um checo (Alex)....


Calcorrearam os Himalaias, os gelos polares, etc. Anton Ogareff, o russo, protagonizava as "autênticas façanhas do maior aventureiro eslavo" ...Billy Keller, O Rei do Far-West, era um caso à parte, pela consistência, densidade e dramatismo da sua existência sobressaltada.



Deixo acima a capa do livro em que emocionadamente travei o primeiro conhecimento com as suas aventuras movimentadíssimas - e que ainda hoje conservo: "Olho por Olho, Dente Por Dente", promessa um tanto inquietante mas de ressonâncias indiscutivelmente bíblicas. Ao tempo, pareceu-me tudo muito bem...



Órfão de pai e de mãe (mortos por facínoras sem alma), Billy Keller herdou o "Rancho dos Ecos" e cresceu vigorosamente para uma vida aventurosa sem par, passada, entre perigos múltiplos, nas imensas pradarias da América ou nos corredores sombrios e labirínticos das suas montanhas, lá, no oeste longínquo...


Havia índios bons e índios maus. Entre os bons sobressaíam - cito de memória - o Artmu e o Palapan. Obedeciam ao grande e nobre Chefe Condor, amigo e aliado de Billy no combate aos perversos daquelas histórias. O chefe dos índios maus era o escorregadio e crudelíssimo Garra Adunca, cumpliciado com um dos maiores patifes brancos que alguma vez se lobrigou por tais paragens: o nefando Big Jackson, um velhaco sem pingo de consciência nem réstia de comiseração pelas suas vítimas...


Até que um dia, muito tempo depois, se apurou que Henry Dalton e Philip Gray não eram ingleses nem americanos. Mais: nem sequer existiam. O autor - o verdadeiro, solitário e denodado autor - daquelas histórias era um português, mestiço, humilde, trabalhador e talentoso, a quem se ficou a dever um esforço hercúleo de divulgação da História de Portugal, em estilo aprazível mas documentado.


Era Mário Domingues (n. 1899 - f. 1977).

Foram dezenas de "Evocações Históricas", a maior parte delas editadas pela Livraria Romano Torres ("Casa Fundada em 1885"), de saudosa memória...Evocações incluídas na "Série Lusíada", tais como as de D. Afonso Henriques - D. Dinis e Santa Isabel - O Marquês de Pombal.



Mas houve muitas mais, como:
Inês de Castro na Vida de D. Pedro - A Vida Grandiosa do Condestável - O Infante D. Henrique - D. João II - D. Manuel I - D. João III - Camões - D. Sebastião - O Cardeal D. Henrique - O Prior do Crato Contra Filipe II - A Revolução de 1640 - D. João IV - O Drama e a Glória do Padre António Vieira - D. João V - Bocage - Fernão Mendes Pinto - Fernão de Magalhães - D. Maria I - Liberais e Absolutistas - O Regente D. Pedro - Grandes Momentos da História de Portugal...


Custa a crer como arranjou este homem (de mil ofícios) tempo, inspiração e disposição para reunir e tratar a documentação necessária a obra tão extensa e meritória. Em justa homenagem aqui se deixa um extracto do que sobre ele se divulgou na lombada de uma destas publicações.



"Mário Domingues nasceu na Ilha do Príncipe, numa roça denominada "Infante D. Henrique".


Contando apenas dezoito meses de idade, trouxeram-no para Portugal e confiaram-no a sua avó paterna, que se encarregou da sua educação. Fez seus estudos em Lisboa, revelando desde muito novo vocação para as Artes e para as Letras. Contrariado, enveredou pela carreira do Comércio, chegando a ser ajudante de guarda-livros e correspondente de Inglês e de Francês.



Mas consagrava todos os seus ócios ao estudo de problemas literários e artísticos. Aos dezassete anos publicou as primeiras tentativas de ficção numa efémera revista de estudantes de Medicina (a "Alba"), apresentada pelo doutor Júlio Dantas..Aos dezanove, porém, o seu nome começou a surgir com frequência a assinar contos e crónicas num jornal diário de Lisboa.E em breve se tornou jornalista profissional, ascendendo a Chefe de Redacção e director de alguns jornais.



Como crítico de Pintura, nos anos Vinte, distinguiu-se pelo ardor com que defendeu os Modernistas, então desdenhados pela opinião pública.Unindo-se a Fernando Pessoa, José Bocheko, Vítor Falcão, António Ferro e outros batalhadores pela renovação da arte em Portugal, teve a coragem de proclamar o excepcional valor de "proscritos" como Almada Negreiros, Eduardo Viana, António Soares, Jorge Barradas e Lino António.


Um dos momentos decisivos da vida de Mário Domingues ocorreu quando ele resolveu manter-se unicamente com o produto dos seus livros. Esta audácia custou-lhe o ter de dissimular-se sob diversos pseudónimos estrangeiros, com os quais assinou mais de uma centena de romances policiais e de aventuras extraordinárias.

Durou alguns anos este trabalho árduo, mas o escritor queria voar um pouco mais alto. Conhecendo os homens do seu tempo, abalançou-se a descrever os de outrora, tal como os visionou no "clima" social, político e religioso em que viveram. E assim nasceu esta "Série Lusíada", que atingiu um êxito invulgar para o nosso meio.



Em atenção ao valor da sua obra de divulgação histórica, dignou-se o senhor Presidente da República agraciá-lo com o grau de Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada, destinada a distinguir individualidades de relevo nas Ciências, nas Artes e nas Letras".



Após décadas de pesado e injusto silêncio, a obra (histórica) de Mário Domingues começou - em boa hora - a ser reeditada pela Prefácio.