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Um aniversário

Diziam cartas e telegramas
da família:
- Muitos parabéns muitas felicidades
E um irmão doente
a mãe cheia de saudades
e a pobreza
calmamente consentida na existência religiosa.


E a glória de ter um filho formado em Medicina!


Fora do lar
um ex-virtuoso amigo que se embriaga
os nossos exportados para S. Tomé
a prostituição
a angústia geral
a vergonha


E a esperança de ter um dos nossos formados em Medicina!


No mundo
a Coreia ensanguentada às mãos dos homens
fuzilamentos na Grécia e greves na Itália
o apartheid na África
e a azáfama nas fábricas atómicas para matar
em massa matar cada vez mais homens


Eles espancando-nos
e pregando o terror.


Mas no mundo constrói-se
no mundo constrói-se.


E o nosso formado em Medicina
construirá também!

Nós com certeza e com a incerteza dos instantes
com o direito e enveredando por caminhos escabrosos
nós os fortes fugindo como gazelas débeis.


E no mundo constrói-se
no mundo constrói-se.


Este um dia do meu aniversário
um dos nossos dias
de vida sabendo a tamarindo
em que nada dizemos nada fazemos [nada sofremos
como tributo à escravidão.


Um dia inútil como tantos outros até [um dia
Mas duma inutilidade necessária.

Setembro de 1951