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O verde das palmeiras da minha mocidade

O verde das palmeiras da minha mocidade
As canoas serpenteavam lestas
sobre as águas sujas
afastando escória e podridão
flores trocos vísceras
impelidas pelo medo
e pela força dos braços.


Para mais alto! Para mais alto!
Nos olhos brincava a aventura
nas mãos crispado o temor
no peito dançava a insegurança.


O Cuanza transbordante
de ameaça e despotismo
avançava sobre a terra
num parto alastrante de chuvas torrenciais
e os crocodilos
vencido o elemento
iam banquetear-se nos currais abandonados.


Eu fugia do verde
do verde negro das palmeiras
da minha mocidade.


Todos os deuses da mística dos séculos
e os seus sacrifícios
cruentos ou incruentos
o sopro metafísico das florestas sagradas
a inspiração divinizada dos xinguilamentos
e dos feiticeiros
ficavam, ficavam encharcados nas águas
da insegurança que me dançava no peito.


E ficavam também
as orgias religiosas dos óbitos
as adivinhações maravilhosas dos malefícios
a histeria
das crepusculares cerimónias para a vida
e para o amor
o cheiro acre do sangue
a fecundidade da terra
o objecto transformado em deus
tintas e poeiras
gotas e fragmentos de ossos
lágrimas e canções
segredos invioláveis de seitas de mistério
humanidade e desumanidade
a poesia
e o rasto espiritual do sangue


Eu
afagava inocente o dedo da insegurança


Orava:
Tata ietu uala ku diulu
Fukamenu!
Lengenu!
O ituxi! O ituxi
ó paradoxo dos pecados!


Nova linguagem!
Não mais as histórias contadas à sombra
da mafumeira
ou à doce luz duma enfumarada fogueira
nem o macaco ou o leão
o coelho ou a tartaruga


Fugir!
Deixar os reptéis banquetear-se no currais abandonados
com tudo quanto criaram os anos
a recordação
da agilidade dos membros e dos troncos
das ancas e das vozes
na noite escura recortados
sobre o clarão do fogo
a vibração o ritmo
o rendilhado dos coqueiros
o cheiro da terra húmida e capinada
as vozes dos homens
o espírito
a graça da autenticidade e da certeza
sincopadas na marimba e no quissange
e sublinhados pelo tambor
o sabor doce e a alegria da tradição.


Eu fugia
e o espírito era espezinhado
nos currais abandonados.


Cresçam sinfonias de Beethoven
e poemas que o amigo Mussunda não entende.


Eu fugia
do verde negro das palmeiras
da minha mocidade
afagando o dedo da insegurança


Os dorsos!
E os dorsos simétricos encurvados sobre a terra
mugindo – a rudemente com as enxadas
de macio brilho
e os cantos ritmando o esforço
a dor
e a poligamia dos afectos
as lágrimas viscosas dos decepados troncos com raiz
a ânsia solidária nas canoas deslizando
sobre as águas
e os sorrisos orquestrados sob os leques dos coqueiros
ou a impossibilidade de cingir o embondeiro
num abraço.


Tudo ficava
lá longe em África
na África da África.


E as águas despóticas e devastadoras
entregavam fartos os currais abandonados
à fome indecente dos animais.


Eu fugia
sorridente e triste
sorridente e vazio
sem terra, nem língua, nem pátria
brincando com a aventura
tremendo ao oscilar das canoas frágeis
esperançosas
para uma metafísica mestiça de conjuntura
com o estômago vazio
e o espírito
esmagado entre os malcheirosos dentes.


Para mais alto!
Para mais alto!


Trazia no sangue a alegria dos espaços
o aroma dos corpos sacrificados à humanidade
a virgindade das flores
a angústia dos cárceres
e da ignorância
o medo
do céu e da terra
dos deuses e dos homens
dos cadáveres e dos vivos
o medo da profundidade e da altura.


Trazia no sangue
o calor humano da amizade
o calor febril dos ritmos violentos da noite
e o brilho verde das folhagens
e dos olhares selvagens das avezinhas
o ruído das torrentes
a subitaneidade dos relâmpagos
a terra
e o homem.


Trazia no sangue
o amor.


Eu fugia
do verde negro das palmeiras
da minha mocidade
afagando inocente o dedo da insegurança
sorridente e triste
deixando o espírito espezinhado nos currais abandonados


E nos gritos embrionários dos velhos mundos
tudo revive
esta dramática mocidade de reencontro
tudo revive em peitos largos de ansiedade
ofegantes à força da verdade
alicerçados no imperecível.


O verde negro das palmeiras
tem beleza!

Cadeia de Caxias
26 de Fevereiro de 1955