Noites de cárcere
Em tardes cálidas
quando olhares e vozes enchem a estrada da Cuca
e lá para a Lixeira
ou nos morros da Maianga
desta terra empobrecida de tudo pelo medo
e enriquecida pela certeza
ressuscitam fogo e magia
e palavra quentes de impaciência
Nessas tarde cálidas
e nas noites de luar
- quando num óbito o tambor chora um cadáver
e as raparigas cantam –
há uma cela de chumbo sobre os ombros do nosso irmão
nosso sangue nosso espírito
dikamba dietu
O seu nome coração bate
Como estrondo de bomba
e há quem tem medo do seu amor
erguido eternamente
sobre um corpo fatigado de prisões
de noite de vigília
dos sofrimentos alheios
do ódio escarrado no rosto pela hipocrisia
Ao lado
alguém geme
com os dedos debruçados de sangue
que corre das unhas rebentadas pela palmatória
Pensa na vitória
e não há sono que chegue para os seu dias de cárcere
ou sonhos que lhe preencham a solidão
Há minutos em que o mundo
Se resume na sala de tortura
Oh!
quem dormirá
quando ao lado há os gritos do louco
quem pulam da janela para lhe apunhalar a carne
sobre o cansaço de insónias angustias e expectativa?
Quem dormirá
quando assiste ao enlouquecer do melhor amigo
ali na cela ao lado
morto o espírito pelo tortura?
Por vezes
lembra-se desse magnífico sorriso de Marina
e também do olhar ingénuo
do jovem barbado à Fidel
que fala com banga para as nuvens
É nossa! É nossa!
Xi ietu manu
kolokota
kizuua a ndo tu bomba
kolokotenu ...
No silêncio sepulcral
das quatros paredes
sem sol
lê na Bíblia
oferta de esperança de sua mãe:
“Bem aventurados os que têm fome
e sede de justiça...”
Porque deles será a pátria
e o amor do seu povo.
Cadeia da PIDE de Luanda
Julho de 1950
