O humanismo de Henda

Enquanto lá fora as folhas voltejavam em turbilhões e o azul luminoso do céu era velado por um manto cinzento que escurecia a terra, o vento penetrava através das persianas sem vidros, transportando diluídas as gotas da chuva, da tempestade súbita que surgira. O furor da tempestade era a Primavera que irrompia na estação das chuvas, que começara.
Henda lia um poema na modesta sala dum poeta seu amigo, onde os horizontes visuais de beleza seriam as paredes empoeiradas duma casa de refugiados, se a poesia se dissociasse dos anseios justos dos homens. Ele lia um poema dum poeta português e tentava compreender.
A música que se ouvia fundia os homens nos mesmos anseios. Vivaldi, n’”As Quatro Estações”, faz-nos amar a terra e os seres e convida-nos à fraternidade. Aí estavam as variantes do Universo. E Henda era levado por este mundo de magia, o seu sangue pulsando ao ritmo do ressurgir da terra, vestida de plenitude, forjando a apoteose! O múltiplo das cores, os perfumes estonteantes, os pássaros e as borboletas esvoaçando… Ei-los de galho em galho entoando cânticos de alegria. E os frutos colorindo-se ao sol ardente num mistério de matrizes e de formas. Os homens e os seres procurando um canto de sombra onde possam descansar, depois do esforço despendido. As folhas curvadas para a terra anseiam a frescura do crepúsculo! Mas por fim os celeiros enchem-se, preparando-se os homens para os dias invernosos, e ao fogo da lareira desfrutar a paz e a quietude.
Henda lia neste mundo de suavidade que a música tivera criado. O poema falava-lhe do soldado português cuja campa abandonada jazia para além dos mares, numa terra que não era a sua! De súbito, erguendo o rosto, de olhar brilhante, disse em voz alta o extracto que mais o tinha impressionado:
Vejo campas em sítio abandonado
Sem lírio branco ou violeta roxa
E alguém que balbucie em voz convulsa
-Meu querido filho, meu esposo amado
Emocionado, revelou ao seu amigo o que se tinha passado dentro de si quando dum ataque a um quartel inimigo, em Cabinda.
-Sabes, ali no Maiombe, a floresta é tão densa que, a um metro de distância, uma pessoa não pode ver a outra! Isto é propício à guerrilha, se nos soubermos orientar, mas na parte das vezes temos de recorrer a pessoas que conhecem bem a floresta, pois que cada pequeno detalhe é para elas um ponto de referência.
«Neste ataque que vou descrever-te, tínhamos um “guia” – é assim que chamamos a estes homens – que se orientava perfeitamente, sabendo distinguir nos aromas da floresta o cheiro peculiar aos homens ou às feras, distinguindo nas ervas pisadas se fora ser humano ou animal que por ali passara. É qualquer coisa de impressionante o sexto sentido!
«Os portugueses têm quartéis espalhados pela floresta, principalmente onde se faz a exploração da madeira e onde é preparada para a exportação. São as chamadas serrações. Eles tentam, com estes quartéis, impedir que destruamos esta fonte de riqueza que são as madeiras da floresta do Maiombe. Evidentemente, querem impedir a todo o custo o nosso avanço, tentando conservar a exploração no nosso país.
«Eu comandava um destacamento de guerrilheiros que tinha por missão a eliminação dum destes quartéis inimigos que nos dificultavam os contactos da frente com a retaguarda.
«Planeámos o ataque com minúcia, fizeram-se diversas missões de reconhecimento do local, e todos os indícios faziam prever um sucesso. Tínhamos dois objectivos com a destruição deste quartel: o nosso avanço e a sabotagem à economia colonialista.
«O dia propício chegou e atacamos o inimigo de surpresa, antes do alvorecer. Os camaradas tinham permanecido perto do quartel, cercando-o, camuflados na noite. A floresta estava silenciosa, as feras nos covis estreitavam os filhos docemente e o sol retardava a enviar os seus raios para não denunciar a nossa presença.
«Atacámos. Os obuses atingiam o alvo, reduzindo a destroços o aquartelamento! Os canhões cantavam a canção dos cataclismos e as labaredas eram cascatas sobrepostas que se lançavam nos abismos… Os soldados, apanhados de surpresa, fugiam em debandada, não lhes deixando os camaradas tempo de pedirem socorro ao quartel mais próximo.
«O chão estava coberto de cadáveres!
«Naquele instante, no meio das detonações e dos clarões do fogo, quando eu tinha nas minhas mãos um meio de vingar as injustiças cometidas contra o meu povo ao longo de cinco séculos de colonialismo, dizendo a mim próprio: “sê firme, recorda-te das carnificinas que sofreste, recorda-te da escravatura, recorda-te
da despersonalização que te impuseram”, a minha mão continuava a empunhar a metralhadora, eu continuava a dirigir o ataque, mas os gritos dos homens através do horror da morte, chorando e tentando sobreviver, o quadro lancinante do momento, mergulhou o meu coração de angústia!
«E perguntei à minha consciência: o que faço eu?
«Quando ouvi estes soldados gritarem e chorarem de desespero, amaldiçoando Salazar, que os tinha atirado para aquela guerra monstruosa, que não era guerra do Povo Português, mas dos fascistas e dos magnates portugueses e estrangeiros; quando pressenti o estertor da morte nos roucos murmúrios que emitiam e os seus corpos se tornavam inertes; quando vi tantos cadáveres de jovens como eu, imóveis para sempre, o meu coração bateu descompassadamente!...
«Naquele momento, eu vi-os apenas homens, travando-se dentro de mim uma luta terrível, entre o dever que eu tinha de aniquilar o inimigo, e o homem!
«Durante dias, esta visão perseguia-me, entristecendo-me. E eu continuava a ouvir as suas lágrimas, as maldições a esta guerra para a qual os colonialistas os atiram, como carne de canhão, sem respeito pela vida dos seus concidadãos. Para uma guerra inútil, porque Angola será livre! E via os seus corpos inertes, de olhos desmesuradamente abertos, como a perguntar, para além da morte, porque estavam ali num solo estrangeiro!
«Eles ficariam como testemunho duma época histórica!
«Perguntei de novo: o que estamos a fazer?
«Fechei-me no meu quarto durante dias, porque eu precisava de estar só. Analisei os factos friamente. Lamentei que esses soldados, esses jovens como eu, fossem inimigos do meu povo, que matam, incendeiam, estropiam! Lamentei que eles não tivessem tido a coragem de se revoltar e dizer NÃO à guerra colonial, de libertarem o seu Povo do fascismo, da opressão, marcando assim para a solução das guerras coloniais. Para a paz entre os nossos Povos.
«Depois desta longa meditação, voltei a ser eu de novo: o militante do MPLA que deve avançar, custe o que custar, para libertar o seu Povo e a sua Pátria das garras do colonialismo. Avançar custe o que custar, estando consciente de que o caminho traçado pelo nosso Movimento está justo, e que foi o único que tivemos de seguir porque os colonialistas portugueses ignoraram todas as soluções que propusemos por via pacífica. Por isso eis-nos prontos a ir em frente, até à vitória final.

Olhou o seu amigo, embaraçado por lhe ter posto a nu a sua alma, mas encontrou um olhar compreensivo e límpido,onde se reflectia a bondade e no qual Henda acreditava. E sorriu do destino e dos caminhos coincidentes dos homens, quando caminhavam para atingir o mesmo ideal! Sorriu aos Sóis do firmamento, quais Rosas-dos-Ventos que iluminam as coordenadas geográficas, trazendo-os ao ponto de reencontro.
No silêncio que se seguiu, ambos recordaram os acontecimentos do passado, tendo ido pelo mesmo trilho difícil, e uma visão vermelha mostrou-lhes as acácias em flor, contrastando com os rostos tristes e enigmáticos dum Povo que tomava a decisão grave e corajosa de se opor ao invasor pela força das armas. Relembraram a ânsia de horas e horas de expectativa, esperando, na Central da Polícia, migalhas de informação sobre entes queridos que se encontravam nas cadeias políticas. Com o coração angustiado, eles suportavam a troça e o escárnio das bestas policiais. O sorriso sarcástico perguntando-lhes o que queriam, tentando por todos os meios quebrar a firmeza dos que tinham a coragem de se lhes opor!
Quantos quilómetros tinham feito às vezes, sob o sol ardente de Luanda, dum extremo ao outro da cidade, a pé, para voltarem de novo na mesma ansiedade, ou aumentada ainda!
Levantaram-se. O amigo, normalmente tão falador, deixou que Henda desabafasse. É tão bom poder encontrar um amigo a quem se possa abrir o nosso coração sem qualquer receio…
- Sabes? – disse Henda. Nunca tinha dito isto a ninguém, nunca tive coragem de fazê-lo, mas este poema…
«Em Angola, um dia, tudo será diferente daqui, do exílio. O nosso Povo é hospitaleiro e reconhecerá o esforço de todos aqueles que trabalharam para a nossa libertação. Verás que tenho razão.
O amigo olhou-o demoradamente, tentando discernir para além dos horizontes.
A tempestade amainara. A música era agora harmonia pujante de vigor e doçura. Os pássaros, em gorjeios, fazendo os ninhos; as árvores revestindo-se de verde e curvando-se para escutar os “glus-glus” cantantes dos rios que o degelo engrossara. Nos campos, a brisa baloiçando levemente as ervas trémulas, acabadas de nascer, que, em coro com as múltiplas flores, executam o bailado mágico e incontível do renascer do novo. Uma nuvem que passa ameaça de dilúvio a terra e faz os passarinhos correrem desvairados cobrir os ninhos! Mas o azul do céu reaparece, a Primavera afirma-se cheia de plenitude.
Henda, fascinado, tentava reter dentro de si toda a multitude de sensações que a música lhe despertava. Raros eram os momentos em que ele podia abandonar-se sem tarefas imediatamente a desempenhar. Por isso naquele momento ele era apenas um jovem de vinte anos, que sente no seu sangue todas as emoções do sonho, que se deixa extasiar pelo mais pequeno detalhe da natureza ou da alma humana. A casa pareceu-lhe maravilhosa e adquiriu encantos que não tinha!
Ah! Quando seria que os jovens do seu país poderiam viver livremente?!
A música continuava. A Primavera e Henda, Henda e os homens…
Henda morreu! Morreu precisamente num ataque a um quartel inimigo, o quartel de Karipende, no Leste de Angola. Ele ia à frente do seus homens, num exemplo de coragem e de bravura, sendo o primeiro a penetrar no quartel colonialista, quando uma bala inimiga o fez tombar para sempre!
Era necessário destruir este reduto colonialista para ao avanço dos guerrilheiros do MPLA, e Henda não quis abandonar esta região de luta sem ter eliminado este quartel que nos impedia um avanço fácil e ameaçava constantemente o país fronteiriço que generosamente nos dava a sua solidariedade. Henda devia coordenar outras regiões de luta, mas o seu destino ofereceu-lhe como último leito o Leste de Angola.
Não conseguiu o seu objectivo porque uma bala inimiga traiçoeiramente o roubou à vida, e os seus homens, alarmados com a sua morte, desmoralizaram no momento, mas o MPLA não podia deixar impune a sua morte, e nos princípios de 1971, depois de valoroso combate, destrói o quartel e põe o inimigo em debandada.
O Comandante Henda foi vingado!

O MPLA perdeu um dos grandes Comandantes do seu exército, um grande militante do seu Movimento! Mas o seu exemplo de herói ficará sempre connosco e recordaremos que Henda, além de grande militante, ele foi um Homem!
Eugénia Neto



