RITUAL TRADICIONAL DE HOMENAGEM AO KILAMBA NO CENTRO CULTURAL DR.ANTÓNIO AGOSTINHO NETO, EM CATETE

Este ritual, realiza-se no dia 10 de Setembro de cada ano, defronte ao busto à entrada do Centro Cultural Dr. Agostinho Neto, em Catete, com a finalidade de aproximar os espiritos ancestrais, garantindo prosperidade à Nação e às pessoas que desenvolvem actividades em prol da divulgação da Vida e Obra do Kilamba.
Antes do seu nascimento, num sonho, a sua mãe, a professora Maria da Silva Neto, recebeu orientação espiritual de que o menino fosse mergulhado no rio Kwanza logo a seguir ao seu nascimento, naquilo que seria o seu primeiro banho; e na mesma lógica, foi igualmente orientada, para que não lhe cortassem o cabelo nos primeiros anos da sua infância, pois, aí residia uma força superior que o inspiraria espiritualmente para a vida, cercando-o de valores, tais como; a inteligência, paciência, prudência, verticalidade, solidariedade e tenacidade.
Partindo deste principio, por meio dessa mesma visão emerge o nome "Kilamba", que significa: o poderoso, mais velho da terra, rei e libertador. Daí, ter-se iniciado depois do seu desaparecimento físico, alguns rituais que caracterizam tradicionalmente o contacto com o seu espirito, reunindo o corpo de sobas da região, autorizados e instruídos para o fazer.
Usam-se os ramos da palmeira, para simbolizar a natureza que tanto amava e protegia. O uso do vinho, como bebida Sagrada e líquido dos Deuses é indispensável ao ritual, por tratar-se de personagem importante. Em cerimónias Sagradas, o vinho simboliza o poder, resistência ou saudação ao Rei. Neste ritual, o vinho é espargido no chão para saudar e homenagear os ancestrais, e noutros momentos, o soba em serviço põe-no na boca e esparge para o ar, gesto feito para afugentar os maus espíritos.
No local onde se realiza este ritual, naquele momento, torna-se um espaço onde o Soba faz a comunicação com os ancestrais, interagindo em língua nacional quimbundo, (oração em súplica – Hassa, tornando o local – Makulo, o espaço místico).
O Kilamba já havia nascido com poder, por isso, era necessário obedecer o cumprimento das visões, sonhos através dos seus pais.
De acordo com o escritor José Luís Mendonça, em palestra apresentada no Shopping Avennida, no dia 5 de Setembro de 2018, passamos a citar: "nas páginas 43 a 45 da obra etnográfica de Óscar Ribas, “Ilundu – Espíritos e Ritos Angolanos”, encontramos uma descrição minuciosa das capacidades e características espirituais do Kilamba. “Kilamba é o intérprete das sereias, ou seja, o sacerdote do culto de tais entidades”.
Kilamba é uma das quatro entidades que constituem os ministros do culto desse fenómeno sócio-cultural africano que se convencionou chamar de Religião Tradicional Africana (termo com o qual discordamos, pois na tradição Bantu não há aquela necessidade da cosmogonia ocidental de ‘religare’, visto que o homem Bantu vive naturalmente ligado às forças espirituais e aos antepassados, sem necessidade de lugar de culto fechado ou templo, daí preferirmos mencionar esta esfera da crença africana simplesmente de Ilundu), portanto, o Kilamba vem logo a seguir ao Kimbanda, em termos de hierarquia espiritual, e acima do Muloji e do Mukua-mbamba.
Na obra Ilundu, podemos ler que Kilamba é “procedente de kituta” e “nasce fadado a comunicar-se com semelhantes seres.” Portanto, enquanto Kilamba faz parte do corpo de ministros do culto tradicional, é uma pessoa física, Kituta é um ente sobrenatural, um ser espiritual terrestre que vive em toda a parte, “como matas, cacimbas, montes, rochas.” Os filhos que encarnam kituta, ou por simpatia (do pai) ou por geração (da mãe), “inspiram a idolatria dos pais.” Agostinho Neto, nas suas vestes de Kilamba, possuía “o privilégio de tratar todos os males ocasionados por kitutas, como doenças, cóleras do mar, estiagens, infestações de feras.”
Enquanto Kilamba, Agostinho Neto saía da esfera da cultura ocidental, introduzida pelo colonialismo, que lhe havia facultado os benefícios culturais da civilização do livro, como o cultivo da Poesia escrita, o curso de Medicina e a Ciência Política, para se integrar noutra esfera emocional e espiritual, a da cultura Bantu, uma esfera etno-linguística fundada na transmissão oral.
Esta incarnação de kituta iria determinar toda a vida de António Agostinho Neto na sua odisseia por este mundo". Fim de citação.



